O Papa Leão XIV propôs aos católicos um desafio quaresmal inquietante: jejuar de palavras que ferem. “Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente“, escreve o Pontífice.
Como especialista em empresas familiares, faço uma pergunta: que transformação veríamos se as famílias empresárias abraçassem este desafio durante 40 dias?
Nesses anos todos trabalhando com famílias empreendedoras, testemunhei incontáveis conflitos que começaram com uma palavra mal colocada… O sarcasmo disfarçado de “brincadeira”… A crítica destrutiva mascarada de “feedback”… A fofoca sobre quem não está presente para se defender… O julgamento precipitado do irmão que “sempre foi assim”…
Quantas sucessões fracassaram não por incompetência técnica, mas por palavras que envenenaram relações ao longo de anos?
Imagine sua família comprometida com este jejum durante a quarenta dias. Nos primeiros dias, você perceberia quantas vezes está prestes a soltar uma palavra ácida. Segurar a língua dói… Mas essa dor é boa!
Com a boca fechada para o sarcasmo, algo curioso acontece: seus ouvidos se abrem. Você começa a ouvir o outro, em vez de já preparar sua resposta destrutiva. Quarenta dias é tempo suficiente para criar um novo padrão. O que era exercício espiritual pode virar competência relacional.
O período quaresmal terminará. Mas as relações familiares continuarão. A questão não é apenas sobreviver 40 dias sem ferir com palavras. A questão é: que família vocês querem ser daqui a 40 anos?
Porque empresas familiares não fracassam por falta de estratégia de mercado. Fracassam por erosão relacional. E essa erosão começa sempre no mesmo lugar: na língua descontrolada.
O Papa nos faz um convite. Quarenta dias para que as palavras que constroem substituam as que destroem. Para que o respeito vença o sarcasmo. Para que a escuta supere o julgamento.
Para famílias empresárias, esse jejum pode ser a diferença entre uma sucessão harmoniosa e uma guerra fratricida. Entre uma empresa centenária e uma disputa judicial. Entre parentes que envelhecem juntos e irmãos que não se falam mais.
Algumas penitências são, na verdade, investimentos no futuro.
Semio Timeni – Advogado e Consultor em Governança e Sucessão Familiar